Wednesday, November 16, 2011

A remissão do pecado


A escola de italiano frequentemente organiza, por um preço razoável, passeios que incluem transporte, jantar, entradas em museus e festivais, etc.  Eu participei de apenas um destes passeios, para Monselice, sendo a única da minha classe na van com nove pessoas. Nem bem havíamos saído de Padova e Francisco, um frade irlandês por volta de setenta anos, sentado ao meu lado no banco da frente da van, comenta que não comia nada a 24h pois veio direto de Roma e não teve tempo. Lhe ofereci uma nectarina, que sempre tenho na bolsa para situações críticas como aquela. Ele recusou sorrindo mas acabou cedendo a minha insistência. Não importa qual a circunstância que você encontre Francisco, sempre vai vê-lo sorrindo. E independente da situação em que esteja, o sorriso sempre será o mesmo - uma espécie de fisionomia botóxica.

A 20 Km ao sudeste de Pádova, Monselice, hoje com uma área total de 50 km2, data sua existência desde 568 DC, dos reinados e impérios a república. O município abriga belíssimos pontos turísticos como o Santuario delle Sette Chiese, o Castello di Monselice, a Villa Duodo, e  pequenos restaurantes muito charmosos.

Logo quando visitávamos os jardins geométricos renascentistas no topo da Villa Duodo, já ouvi alguém mencionar que Francisco não parecia bem. Preocupado, nosso guia interrompe a visita a igreja de San Giorgio onde esqueletos de cavaleiros vestidos a caráter se encontram expostos em túmulos de vidro desde o século XII, para irmos beliscar algo, pois Francisco certamente não conseguiria aguentar esperar até o jantar. Pergunto ao guia se a igreja é uma espécie de cemitério de crianças, e escuto sem graça que naquela época a estatura média da população era de 1.40 mt.  Essa informação se confirmou durante a visita ao Castello di Monselice, que expõe uma das mais importantes coleções de armaduras e armamentos medievais da Europa. 




A caminho do estacionamento, o guia percebe que Francisco se encontra muito debilitado para subir a escadaria, e nos diz para esperarmos até que ele traga a van. Ignoro seu pedido e sigo caminhando com ele enquanto os outros esperam, e recebo uma aula particular sobre as batalhas históricas, o significado das estátuas simbolizando a parceria entre Papas e reis, o desnível do piso feito de pó de mármore e sangue de javalis selvagens...


Lotamos novamente a van e seguimos a uma prosciutteria. Cinco ou seis tipos de prosciutto e várias jarras de vinho são trazidos a nossa mesa babilônica e Francisco come apenas uma fatia, a menor. Todos se entreolham, e alguns insistem para que ele coma mais, afinal estávamos todos ali precocemente por sua causa.  A essa altura, seu sorriso inalterado começa a me causar uma leve irritação. Francisco nos assegura que já esta melhor e damos continuidade ao itinerário. Até que todos se desconectassem de suas câmeras fotográficas e filmadoras, e lotassemos novamente a van, fôssemos para o próximo ponto turístico, descêssemos da van, até estacionar a van, e nos encontrassemos novamente com o guia, a tal casa do duque, escritor ou pintor já estava fechada. Em frente ao portão de ferro trancado da mansão, um homem encerrava uma pequena feira em seu quintal - diversos tipos de abóboras! Ele nos oferece algumas romãs e seguimos chupando as suculentas sementes vermelhas enquanto admirávamos a cidade abaixo de nós, em silêncio.  


Já passava das 9 da noite quando a van estacionou em frente a um grande restaurante na beira de uma estrada a 10km de Padova. Vou direto ao banheiro unisex com inúmeras portinhas, como os banheiros de aeroportos e rodoviárias, e ao sair me deparo com Francisco. Fome e cansaço das longas horas no carro em movimento, já não sei se em minha frente está Francisco ou o sorriso do gato da Alice no país das maravilhas. Devolvo-lhe o sorriso e ele sai do banheiro antes de mim sem lavar as mãos. Ao chegar na nossa mesa, me sento na única cadeira disponível, ao lado de Francisco. Um a um, os pratos são trazidos por garçons com muito gel nos cabelos, e com os pescoços adornados por grossas correntes onde crucifíxos ou a face de Jesus ou Maria se penduravam meio as camisas entreabertas. Começo a me servir no intuito de quebrar o gelo e sou logo seguida pelos outros. Francisco diz não estar com fome e recusa tudo o que lhe oferecem. Procuro abafar os gemidos com o guardanapo de tecido enquanto mastigo devagar; os olhos fechados, a cabeça arcada levemente para cima, meu peito se enchendo e esvaziando lentamente como se estivesse sendo controlado por um balão de oxigênio hospitalar. Abro os olhos e me deparo com Francisco me olhando. Sua boca exibindo o mesmo sorriso, mas  a testa e a periferia dos olhos rodeadas de rugas de curiosidade e incerteza – “esta bom?...”. Balbucio enfaticamente com a boca bem cheia enquanto levanto a travessa de tagliata bem a altura do seu nariz, e num movimento  sincronizado, muito harmônico, o garfo de Francisco tasca uma pequena lasca de carne, a ponta do garfo ainda livre para espetar legumes cobertos de alecrim. A essa altura apenas os olhos de Francisco sorriam. Uso o meu próprio garfo ignorando os princípios de higiêne e etiqueta e empurro alguns pedaços gordos da carne imersa no molho amanteigado no seu prato. Gememos juntos enquanto trocamos um olhar cúmplice, minha cabeça balançando vagarosamente a cada mastigada enquanto meus olhos o confortam; como se as mãos dos meus olhos segurassem as mãos dos seus, com compaixão e acalanto. Meu corpo se debruça sobre a mesa para alcançar a bandeja repleta de uma espécie de massa de pizza muito fina e crocante porém sem queijo ou nenhum tipo de cobertura, apenas o mais puro azeite de oliva! Passo a bandeja para Francisco e procuro encobrir sua rejeição, com gemidos firmes, enfáticos e decididos, e ele intimidado, obedece e aceita. Alcanço a travessa de frutos do mar e com ela empurro sua mão que tenta em vão me parar, enquanto o meu garfo desliza alguns tentáculos do polvo no único espaço vazio do seu prato. Pela primeira vez ele não sorri; da sua boca bem cheia, se vê apenas escorrendo no canto, um fio que não sei bem ao certo se é do vinagrete do polvo ou apenas saliva. Ele sussurra timidamente e quase não o escuto chamar o garçom para trazer mais uma jarra de vinho. Recuso o café espresso que o garçom oferece mas Francisco aceita a minha sugestão e o toma com um shot de grappa. 

uma estudante de Portugal e o guia

Com as pernas estiradas para frente e as costas apoiadas no encosto da cadeira, o olhar de Francisco me pertence, e não consigo identificar se em seu olhar se esconde a vergonha de encarar os outros e a si mesmo, ou o ódio por mim. E antes de me levantar, sem saber bem ao certo se arrependida ou envergonhada da natureza vingativa e julgativa, o conforto lebramdo-o que a gula já nao é mais considerada um pecado perante a igreja. E caminhamos juntos com lentidão até o banco da frente da van, com a silenciosa certeza de que aquela era a última vez que trocávamos tantas intimidades. Ao fim da estrada escura, já dava pra ver ao fundo, as luzes da cidade de Padova. 

Padova by Stefan Seip - TWAN