Sunday, January 22, 2012

E nada disso teria sido possível sem o apoio de...


Signora Franca e o neto
proprietária da casa de estudantes 

Inkar
estudante do Kazakistão e inquilina da Signora Franca

Sumiê
estudante do Japão e inquilina da Signora Franca

 Cristina
proprietária da escola de italiano Bertrand Russell

Carla
professora da escola de italiano Bertrand Russell

Estudantes da escola de italiano Bertrand Russell

Marurice & Ivonne Lellouche
Lyon-FR
Tatiana Dassi
amiga e inspiração literária constante

Priscila Furlan Nunes
prima paterna e pioneira na busca das raízes italianas

André Cypriano
marido e parceiro

Aga Cypriano
filha e companheira

Valdir Furlan
meu pai, e neto de Valentino Giuseppe Furlan


A todos, o meu profundo agradecimento.

Discordar acima de tudo!

Aproveito cada oportunidade para treinar o italiano. Releeio os anúncios repetitivos postados na televisão do ônibus a caminho da escola - comunicados locais sobre a comunidade e notícias do interesse nacional: “Jamais deixarei o Santos - Neymar do Milan”. Desço do ônibus rumo a minha cafeteria favorita e dou início a minha manhã com um cappuccino Illy - timbalaiê tocando no radio. Timbalaiê na boca dos jovens do vilarejo de Camposampieiro. No stereo do motorista de taxi. Italia e Brasil se cruzando em um instânte  – um em decandência, o outro em ascensão, ambos no limbo, em uma espécie de Segundo Mundo. Me pego com frequência me forçando a absorver ao máximo cada pequeno detalhe – isso ainda não é uma lembrança do que já passou e nem um devanieio do planejamento desta viagem. Esta é a viagem e eu estou aqui! Agora! E então percebo que os sonhos são tão reais quanto as realizações - e surpresa! eficazes, em sua força e poder.  

Já não sei se essa história ainda é parte do meu presente, pois ao final desse pensamento ela já não é mais. Quanto mais eu a persigo mais ela foge de mim. Já não posso distinguir com extatidão o presente do passado. É como se minhas lembranças se dividissem em duas categorias: a das situações que vivi, e a das imagens que passei imaginando desde Fevereiro quando comecei a planejar a viagem. E a saudade não poupa mais uma do que a outra. Lugares inexistentes porém tão reais quanto os que pisei; pessoas e situações que existiram apenas no meu imaginário mas que ocupam o mesmo espaço. Como uma história que depois de dar vida a um livro e a um filme, passa a ser três histórias, numa espécie de diversificação entre mitose e meiose. 

Conforme os dias vão se dissolvendo na inevitável contagem regressiva, a minha Italia vai se petrificando dentro de mim. E quase sem perceber – como se um mês fosse suficiente – vou aceitando melhor a sua obsessão com a Audrey Hepburn; o fato das filas sempre se acabarem ao meu lado e nunca atras de mim, e no mínimo descuido você imperceptivelmente vai ficando para tras, sendo sempre o último duas vezes na mesma fila! A Italia com seus mitológicos homens lindos - mas convenhamos, até o Ronaldinho Gaúcho fica lindo de camisa e mocacim. E não posso dizer o mesmo das mulheres, o que é completamente compreensível, com os preços que estampam as etiquetas das vitrines. 

Chego em casa e vou direto para o quarto da Signora Franca – minha mãe italiana numa espécie de versão mercenária Feliniana. Saio do banho e vou até a cozinha cantarolando alto segurando a toalha pelas costas com uma só mão, e assisto CSI com ela enquanto preparo algo rápido para comer. Sim, a Italia é minha. E é como cidadã italiana que a Itália me concebe. Matriarcal, derrama sobre mim o caloroso egoísmo possessivo próprio das mães, e nem sequer aceita meu sobrenome de casada. Aqui não sou nem mãe nem esposa, apenas bisneta. Sou despida de nome, sobrenome, outra nacionalidade e endereço. Deixo de ser Bianka para me tornar a junção de todas as cores; tão lambuzada em todas elas que por vezes é como se nunca houvesse existido outra vida anterior a essa - e acredito que seja uma estratégia do meu inconsciente, muito eficaz, para que minha experiência seja a mais proveitosa e tranquila, e eu possa absorver o máximo possível. Longe da responsabilidade de manter a expectativa sobre o personagem que criei. Para que mesmo quando eu me fantasie novamente dele, eu saiba onde exatamente se encontra a minha essência. E possa seguir dando continuidade a esse processo, buscando, descobrindo e discordando. Discordando acima de tudo!