Quando chego no aeroporto de Lyon, na França, Maurice e Ivonne já estavam me esperando. Os avisto antes dele levantar a plaquinha com o meu nome, afinal dez anos haviam se passado desde que havíamos nos visto, por uma única vez, em Nova York. Em seus oitenta e poucos anos, pareciam os mesmos de antes. No carro, Ivonne insiste que eu vá no banco da frente para melhor apreciar as paisagens da cidade. E entre um e outro ponto turístico, criamos nosso próprio dialeto, onde o italiano sustenta o inglês, espanhol, francês e o português.
Em dados momentos, nosso silêncio confortável ia sendo preenchido pela música clássica da rádio. E iam me mostrando monumentos antigos e praças, vistas panorâmicas nas partes altas da cidade, prédios cobertos em ouro, estátuas e ruínas, a pedra datada da era glacial exposta como um monumento. Ao entrarmos na Basílica de Fourviere, me pergunto se ao voltar para a Itália, algum outro monumento vai me emocionar tanto como aquele – a igreja barroca considerada o trabalho em mosaico mais bem elaborado de toda Europa!
Ela caminha comigo até as ruínas do Odeon enquanto ele nos espera no carro, e me conta sobre os concertos das orquestras que já assistiu ali bebendo vinho debaixo do céu estrelado. Chegamos no La Mangue Amere (manga amarga), um restaurante de fusão africana, onde sua filha e o marido nos esperavam já sentamos. Conversaram brevemente com o proprietário proveniente da Tunisia, que volta com vários pratinhos do que parecem ser aperitivos, onde anéis de calamari se escondiam dentro de “bolinhos de chuva” picantes. Como se os pratinhos tivessem um sensor que imediatamente avisa quando estão vazios, vêem da cozinha uma outra rodada de bolinhos de variadas formas, triangulares, redondos, ovais, adornados por patê de berinjela, purê de abacate e uma espécie de guisado de pimentões acebolados - amarelos e vermelhos. A atenção toda voltada para mim, água com gás ou natural?? Após gemidinhos e carinhas de satisfação, tento me expressar através da linguagem simbólica ao tirar meu guardanapo do colo e coloca-lo em cima da mesa. E quando finalizo uma das melhores experiências gastronômicas de toda minha vida, pousa em minha frente um prato decorado por um losango de arroz laranjado ao lado de seis grãos do melhor feijão que já provei na minha vida, e uma suculenta carne a base de molho de tomate - como um cozido de músculo. Aproveito um momento descontraído onde todos estão a conversar o francês e enxugo o suor da testa com o guardanapo do colo. Disfarço meu esforço em colocar a última garfada na boca sem que percebam minha mão trêmula. Assim que repouso o garfo no prato lustrado pelo pedaço de pão como havia minusciosamente analisado todos fazendo, fecho os olhos numa mistura de náuse a alívio e quando os abro me deparo com coxas de galinha ao molho acebolado, cítrico e esverdeado. Deixando apenas o osso pelado ao lado dos talheres inutilmente cruzados, desabotôo disfarçadamente a calça e procuro sorrir sempre que se dirigem a mim. Não cubro o meu copo quando o vinho é novamente servido pois temo que notem minha mão suada a tremer. Pergunto se os franceses comem assim normalmente e eles me explicam que não, que esta era uma ocasião especial para celebrar a minha vinda. E em meio a muita alegria reaparece o homem da Tunísia com pratos individuais de bolo coberto por uma calda de chocolate quente, rodeado por frutas vermelhas frescas. E todos levantam um brinde a mim.
O cheiro do café recém passado me desperta na manhã seguinte. Na mesa da sala as geléias de framboesa e pêssego, feitas pela própria Ivonne, esperam para serem espalhadas sobre a bisnaga crocante. Assim que consigo me desvencilhar das delícias, busco abrigo em meu quarto com o pretesto de checar meus emails, mas sou logo convidada para visitar a feira de rua, conhecer os produtos artesanais da região. Maurice me explica com detalhismo e paciência, a precedência e feitio de cada queijo, enquanto caminhamos entre nuances e tonalidades de embutidos, cortes de coelhos, patos inteiros desossados, rocamboles de porco e ovelha com ervas, pernas de rãs e muitos, muitos tipos de peixes. Com a sua bênção, compro um queijo de cabra e finalmente, o meu primeiro camembert!
E voltamos para casa enquanto seguro o pacote com muito mimo e cuidado. Ao abrirmos a porta somos sugados pelo cheiro vindo da cozinha, onde a mesa posta nos sinalizava que era hora de nos sentarmos. Respiro aliviada quando vejo em minha frente o primeiro prato, afinal que ameaça pode provocar uma salada de alface? Trocamos gentilezas enquanto enfio a primeira garfada na boca, e como se tivesse engasgado, não consigo terminar a frase que estava falando. Espremo os olhos como se estivesse tendo uma súbita cólica e abaixo a cabeça enquanto seguro a testa com a mão fechada, o cotovelo apoiado na mesa, em constrangimento. Mas do que era feito o molho daquela salada?? Amendoin, certamente era amendoin! Abro os olhos e me deparo com ambos em expectativa, e enfim soltam uma gargalhada. Após desfrutar do breve momento sádico, ele me explica que ele mesmo faz o molho: vinagre de maça sem alcool, balsâmico, oliva, três tipos de mostarda, e muita salsinha. Raspo os resquícios do prato com o pão remanescente para dar espaço ao segundo prato, le canelle - uma especialidade de Lyon. Só consigo parar de gemer quando engulo os goles do vinho branco, também das redondezas de lá. Eles me explicam que em um restaurante francês, o menu oferece queijo e/ou sobremesa. Entendo a lógica quando para o terceiro prato somos servidos queijo de cabra, morangos e framboesas frescas. Não sabendo bem ao certo se cansada ou embriagada, me arrasto até o carro onde seguimos para Perouges, uma cidade medieval a uma hora e meia de Lyon.
Eles me explicam detalhes sobre a cidade com a paciência de quem o faz pela primeira vez - as pedras nas esquinas que protegiam as casas das rodas das carroças; os buracos onde os canhões eram apontados, no alto das paredes da igreja gótica que também servia como fortaleza; o que era restauração e o que era original. Só sinto a falta de Ivonne quando ela já esta pagando pelo creme fresco, da qual a venda na cidade é proibida, devido as regras atuais de pasteurização. Caminhando, vou digerindo o almoço, sem pressa sob o sol, e sem perceber sou levada até um hotel/restaurante, sob pretesto de me mostrarem as peças arqueológicas expostas de forma a lembrar o modo de vida daquela época. Entre a mesa que nos sentamos e a lareira, uma maquineta que um dia provavemente girava lentamente a assar javalis. Por um milésimo de segundo esqueço que não compreendo a língua mãe de Maurice, e me indago o motivo dele querer impedir que eu saiba o que ele esta falando com a serviçal, muito pálida toda vestida de preto, avental e toquinha branca amarrada no pescoço cobrindo as orelhas. Tenho receio de perguntar e apreciamos peças antigas que nos rodeiam - eramos parte de um museu! A serviçal volta das trevas do fim do corredor carregando uma enorme bandeja de prata com galettes - uma tortinha própria da culinária local de Perouges, e enche nossas taças com um brut de cidra. Olho para o creme fresco sobre a mesa e o imagino cobrindo meu galette. Chegamos em casa exaustos e o jantar é preparado rapidamente pois a vagem já havia sido cozida, acrescentando-se apenas a gorgonzola e alguns outros temperos e ervas. O vinho tinto produzido nos arredores.
Na Italia, tenho passado todas as noites rasgando a madrugada postando e estudando. E pela primeira vez desde que cheguei na Europa, durmo dez horas de um sono profundo e tranquilo. Antes de abrir os olhos visualizo o creme fresco que em breve estaria entre as fatias de pão e a geléia de groselhas frescas. E é com alegria que descalça e de pijama, me apresso até a cozinha onde os dois absorvidos com a montagem da mesa, me recebem com o café, que também bebo sem açúcar - como não havia percebido isso antes?!, o doce da geléia basta! Passamos a manhã nos revesando a contar histórias sobre viagens que fizemos, uns lugarem em comum outros não. Me recolho em meu quarto, e como numa cerimônia, me preparo para o almoço: omelete com champignon frescos, queijo e salsinha, acompanhados pelo pão. Para sobremesa "e/ou", o creme fresco batido com açúcar e servido com o queijo de cabra que lembra um qualquer-coisa de ferrugem. O sábado chuvoso me convida a visitar a 11º Biennale de Lyon - A TERRIBLE BEAUTY IS BORN, com exibições em prédio magníficos como o do Museu de Arte Contemporânea, e do La Sucrière - originalmente uma fábrica de açúcar construída em 1930 e agora um prédio moderno com os resquícios dos gigantes tonéis que sobreviveram o tempo e a guerra. Também o L’usine T.A.S.E – uma antiga fábrica de seda inaugurada em 1924.
Chego em casa junto com a chuva e sou recepcionada por canapés de foe gras espalhados pela mesa da cozinha. Olho para as torradinhas com devoção e instantaneamente me esqueço do movimento de proteção e defesa dos animais, da crueldade, dos direitos, dos ambientalistas, do pato. Mesmo porque logo em seguida já estamos de talheres fincados no saucisson a cuire lyonnais - salsichão artesanal feito por camponeses dos arredores, a manteiga escorregando pela batata grande cozida. Flan de chocolate com calda de caramelo, e queijo de ovelha dão o toque final `a refeição cheia de fotos de arte e vinho branco com cassis, distinto da região. Rastejo até o meu quarto, e por uma breve fração de segundo, desconfio estar sendo mantida refém em uma versão moderna de cativeiro de João e Maria. Talvez o convite, o fim de semana prolongado, a recepção calorosa, o zêlo e o carinho, sejam apenas disfarces de um plano que desconheço - La Grande Bouffe!
No domingo de manhã, logo após as geléias caseiras, apreciamos pequenos monumentos entre os caminhos do antigo cemitério da cidade, fundado em 1800’s. Na volta, a panela borbulha sobre o fogão nossa última refeição - a banha de pato perfuma a casa e refoga a cenoura e o bacon. E já saudosos, brindamos o vin de noix - licor digestivo adocicado de nozes, também próprio da região. Na mala os queijos e os presentes – as três mostardas necessárias para o preparo do molho da melhor salada que já comi na vida! Só no elevador percebo que a garrafinha que sempro levo comigo, esta repleta da água que não coloquei - meus cicerones minimalistas e zelosos. E nos despedimos no mesmo lugar que nos encontramos a três dias atrás, apenas agora, com o peito mais cheio de amor. Na inspeção do raio-x após o check-in, me dizem que não posso passar com os queijos e a mostarda (havia entrado com as geleias e molhos de pimenta que os presenteei!) e vejo as delícias ilusórias – afinal nunca comi um camembere para chorar a sua falta - irem para um grande latão de lixo. E naquele exato momento o clichê se derramou sobre mim como uma luz divina, porque nessa vida nada se leva. E para a minha surpresa sinto uma profunda leveza, na mala e na alma, e sigo até o terminal de embarque de volta a Veneza arrotando serenamente o tortelette de limão que comemos de sobremesa no almoço, e isso eles não podiam tirar de mim. No desembarque em Veneza, sou surpreendida por uma imensa tranquilidade, caminho a vontade pelos corredores do aeroporto como estivesse aterrissado em São Paulo. Troco algumas palavras com os comissários de bordo, reclamo com a mulher que corta a fila no banheiro, e compro o bilhete para Padova onde a vendedora me explica que o ônibus sai de hora em hora. Transformei a Itália em um lugar real, onde as mulheres não tem bom gosto para se vestir, muitos dos costumes me irritam – não mais que os do Brasil - onde reconheço os turistas, onde compreendo e sou compreendida. A França, a minha França, continua num portal imaginário, onde a beleza e a moda imperam, as pessoas são impecavelmente educadas, os cortes de cabelo criativos, as crianças comportadas e bem vestidas, as refeições são uma festa, e o ar nicotínico cheira perfume. Sento no banco de frente a parada do ônibus e respiro fundo o ar esfumaçado de cigarro. Começo a correr a caneta no papel e não percebo que meu ônibus passou – espero pelo próximo. Tendo partido e voltado, descobri que a Itália me pertence. Que ela é tão minha casa quanto Nova York e Maringá. E pela primeira vez me sinto desapego – não, não é um erro de escrita - e mesmo que eu nunca mais volte, esta sempre será a minha pátria. Nesse momento me dou conta que encontrei o que não sabia que estava buscando. E me alegro por ter mais duas semanas para viver a minha Itália. It feels good to be back home!



























