Monday, September 19, 2011

La Grande Bouffe

Quando chego no aeroporto de Lyon, na França, Maurice e Ivonne já estavam me esperando. Os avisto antes dele levantar a plaquinha com o meu nome, afinal dez anos haviam se passado desde que havíamos nos visto, por uma única vez, em Nova York. Em seus oitenta e poucos anos, pareciam os mesmos de antes. No carro, Ivonne insiste que eu vá no banco da frente para melhor apreciar as paisagens da cidade. E entre um e outro ponto turístico, criamos nosso próprio dialeto, onde o italiano sustenta o inglês, espanhol, francês e o português. 



Em dados momentos, nosso silêncio confortável ia sendo preenchido pela música clássica da rádio. E iam me mostrando monumentos antigos e praças, vistas panorâmicas nas partes altas da cidade, prédios cobertos em ouro, estátuas e ruínas, a pedra datada da era glacial exposta como um monumento. Ao entrarmos na Basílica de Fourviere, me pergunto se ao voltar para a Itália, algum outro monumento vai me emocionar tanto como aquele – a igreja barroca considerada o trabalho em mosaico mais bem elaborado de toda Europa!



Ela caminha comigo até as ruínas do Odeon enquanto ele nos espera no carro, e me conta sobre os concertos das orquestras que já assistiu ali bebendo vinho debaixo do céu estrelado. Chegamos no La Mangue Amere (manga amarga), um restaurante de fusão africana, onde sua filha e o marido nos esperavam já sentamos. Conversaram brevemente com o proprietário proveniente da Tunisia, que volta com vários pratinhos do que parecem ser aperitivos, onde anéis de calamari se escondiam dentro de “bolinhos de chuva” picantes. Como se os pratinhos tivessem um sensor que imediatamente avisa quando estão vazios, vêem da cozinha uma outra rodada de bolinhos de variadas formas, triangulares, redondos, ovais, adornados por patê de berinjela, purê de abacate e uma espécie de guisado de pimentões acebolados - amarelos e vermelhos. A atenção toda voltada para mim, água com gás ou natural?? Após gemidinhos e carinhas de satisfação, tento me expressar através da linguagem simbólica ao tirar meu guardanapo do colo e coloca-lo em cima da mesa. E quando finalizo uma das melhores experiências gastronômicas de toda minha vida, pousa em minha frente um prato decorado por um losango de arroz laranjado ao lado de seis grãos do melhor feijão que já provei na minha vida,  e uma suculenta carne a base de molho de tomate - como um cozido de músculo. Aproveito um momento descontraído onde todos estão a conversar o francês e enxugo o suor da testa com o guardanapo do colo. Disfarço meu esforço em colocar a última garfada na boca sem que percebam minha mão trêmula. Assim que repouso o garfo no prato lustrado pelo pedaço de pão como havia minusciosamente analisado todos fazendo, fecho os olhos numa mistura de náuse a alívio e quando os abro me deparo com coxas de galinha ao molho acebolado, cítrico e esverdeado. Deixando apenas o osso pelado ao lado dos talheres inutilmente cruzados, desabotôo disfarçadamente a calça e procuro sorrir sempre que se dirigem a mim. Não cubro o meu copo quando o vinho é novamente servido pois temo que notem minha mão suada a tremer. Pergunto se os franceses comem assim normalmente e eles me explicam que não, que esta era uma ocasião especial para celebrar a minha vinda. E em meio a muita alegria reaparece o homem da Tunísia com pratos individuais de bolo coberto por uma calda de chocolate quente, rodeado por frutas vermelhas frescas. E todos levantam um brinde a mim. 


O cheiro do café recém passado me desperta na manhã seguinte. Na mesa da sala as geléias de framboesa e pêssego, feitas pela própria Ivonne, esperam para serem espalhadas sobre a bisnaga crocante.  Assim que consigo me desvencilhar das delícias, busco abrigo em meu quarto com o pretesto de checar meus emails, mas sou logo convidada para visitar a feira de rua, conhecer os produtos artesanais da região. Maurice me explica com detalhismo e paciência, a precedência e feitio de cada queijo, enquanto caminhamos entre nuances e tonalidades de embutidos, cortes de coelhos, patos inteiros desossados, rocamboles de porco e ovelha com ervas, pernas de rãs e muitos, muitos tipos de peixes. Com a sua bênção, compro um queijo de cabra e finalmente, o meu primeiro camembert! 



E voltamos para casa enquanto seguro o pacote com muito mimo e cuidado. Ao abrirmos a porta somos sugados pelo cheiro vindo da cozinha, onde a mesa posta nos sinalizava que era hora de nos sentarmos. Respiro aliviada quando vejo em minha frente o primeiro prato, afinal que ameaça pode provocar uma salada de alface? Trocamos gentilezas enquanto enfio a primeira garfada na boca, e como se tivesse engasgado, não consigo terminar a frase que estava falando. Espremo os olhos como se estivesse tendo uma súbita cólica e abaixo a cabeça enquanto seguro a testa com a mão fechada, o cotovelo apoiado na mesa, em constrangimento. Mas do que era feito o molho daquela salada?? Amendoin, certamente era amendoin! Abro os olhos e me deparo com ambos em expectativa, e enfim soltam uma gargalhada. Após desfrutar do breve momento sádico, ele me explica que ele mesmo faz o molho: vinagre de maça sem alcool, balsâmico, oliva, três tipos de mostarda, e muita salsinha. Raspo os resquícios do prato com o pão remanescente para dar espaço ao segundo prato, le canelle - uma especialidade de Lyon. Só consigo parar de gemer quando engulo os goles do vinho branco, também das redondezas de lá. Eles me explicam que em um restaurante francês, o menu oferece queijo e/ou sobremesa. Entendo a lógica quando para o terceiro prato somos servidos queijo de cabra, morangos e framboesas frescas. Não sabendo bem ao certo se cansada ou embriagada, me arrasto até o carro onde seguimos para Perouges, uma cidade medieval a uma hora e meia de Lyon.  




Eles me explicam detalhes sobre a cidade com a paciência de quem o faz pela primeira vez - as pedras nas esquinas que protegiam as casas das rodas das carroças; os buracos onde os canhões eram apontados, no alto das paredes da igreja gótica que também servia como fortaleza; o que era restauração e o que era original. Só sinto a falta de Ivonne quando ela já esta pagando pelo creme fresco, da qual a venda na cidade é proibida, devido as regras atuais de pasteurização.  Caminhando, vou digerindo o almoço, sem pressa sob o sol, e sem perceber sou levada até um hotel/restaurante, sob pretesto de me mostrarem as peças arqueológicas expostas de forma a lembrar o modo de vida daquela época. Entre a mesa que nos sentamos e a lareira, uma maquineta que um dia provavemente girava lentamente a assar javalis. Por um milésimo de segundo esqueço que não compreendo a língua mãe de Maurice, e me indago o motivo dele querer impedir que eu saiba o que ele esta falando com a serviçal, muito pálida toda vestida de preto, avental e toquinha branca amarrada no pescoço cobrindo as orelhas. Tenho receio de perguntar e apreciamos peças antigas que nos rodeiam - eramos parte de um museu! A serviçal volta das trevas do fim do corredor carregando uma enorme bandeja de prata com galettes - uma tortinha própria da culinária local de Perouges, e enche nossas taças com um brut de cidra. Olho para o creme fresco sobre a mesa e o imagino cobrindo meu galette. Chegamos em casa exaustos e o jantar é preparado rapidamente pois a vagem já havia sido cozida, acrescentando-se apenas a gorgonzola e alguns outros temperos e ervas. O vinho tinto produzido nos arredores. 

Na Italia, tenho passado todas as noites rasgando a madrugada postando e estudando. E pela primeira vez desde que cheguei na Europa, durmo dez horas de um sono profundo e tranquilo. Antes de abrir os olhos visualizo o creme fresco que em breve estaria entre as fatias de pão e a geléia de groselhas frescas. E é com alegria que descalça e de pijama, me apresso até a cozinha onde os dois absorvidos com a montagem da mesa, me recebem com o café, que também bebo sem açúcar - como não havia percebido isso antes?!, o doce da geléia basta! Passamos a manhã nos revesando a contar histórias sobre viagens que fizemos, uns lugarem em comum outros não. Me recolho em meu quarto, e como numa cerimônia, me preparo para o almoço: omelete com champignon frescos, queijo e salsinha, acompanhados pelo pão. Para sobremesa "e/ou", o creme fresco batido com açúcar e servido com o queijo de cabra que lembra um qualquer-coisa de ferrugem. O sábado chuvoso me convida a visitar a 11º Biennale de Lyon - A TERRIBLE BEAUTY IS BORN, com exibições em prédio magníficos como o do Museu de Arte Contemporânea, e do La Sucrière - originalmente uma fábrica de açúcar construída em 1930 e agora um prédio moderno com os resquícios dos gigantes tonéis que sobreviveram o tempo e a guerra. Também o L’usine T.A.S.E – uma antiga fábrica de seda inaugurada em 1924.







Chego em casa junto com a chuva e sou recepcionada por canapés de foe gras espalhados pela mesa da cozinha. Olho para as torradinhas com devoção e instantaneamente me esqueço do movimento de proteção e defesa dos animais, da crueldade, dos direitos, dos ambientalistas, do pato. Mesmo porque logo em seguida já estamos de talheres fincados no saucisson a cuire lyonnais - salsichão artesanal feito por camponeses dos arredores, a manteiga escorregando pela batata grande cozida. Flan de chocolate com calda de caramelo, e queijo de ovelha dão o toque final `a refeição cheia de fotos de arte e vinho branco com cassis, distinto da região.  Rastejo até o meu quarto, e por uma breve fração de segundo, desconfio estar sendo mantida refém em uma versão moderna de cativeiro de João e Maria. Talvez o convite, o fim de semana prolongado, a recepção calorosa, o zêlo e o carinho, sejam apenas disfarces de um plano que desconheço - La Grande Bouffe!



No domingo de manhã, logo após as geléias caseiras, apreciamos pequenos monumentos entre os caminhos do antigo cemitério da cidade, fundado em 1800’s.  Na volta, a panela borbulha sobre o fogão nossa última refeição - a banha de pato perfuma a casa e refoga a cenoura e o bacon. E já saudosos, brindamos o vin de noix - licor digestivo adocicado de nozes, também próprio da região. Na mala os queijos e os presentes – as três mostardas necessárias para o preparo do molho da melhor salada que já comi na vida! Só no elevador percebo que a garrafinha que sempro levo comigo, esta repleta da água que não coloquei - meus cicerones minimalistas e zelosos. E nos despedimos no mesmo lugar que nos encontramos a três dias atrás, apenas agora, com o peito mais cheio de amor. Na inspeção do raio-x após o check-in, me dizem que não posso passar com os queijos e a mostarda (havia entrado com as geleias e molhos de pimenta que os presenteei!) e vejo as delícias ilusórias – afinal nunca comi um camembere para chorar a sua falta - irem para um grande latão de lixo. E naquele exato momento o clichê se derramou sobre mim como uma luz divina, porque nessa vida nada se leva. E para a minha surpresa sinto uma profunda leveza, na mala e na alma, e sigo até o terminal de embarque de volta a Veneza arrotando serenamente o tortelette de limão que comemos de sobremesa no almoço, e isso eles não podiam tirar de mim. No desembarque em Veneza, sou surpreendida por uma imensa tranquilidade, caminho a vontade pelos corredores do aeroporto como estivesse aterrissado em São Paulo. Troco algumas palavras com os comissários de bordo, reclamo com a mulher que corta a fila no banheiro, e compro o bilhete para Padova onde a vendedora me explica que o ônibus sai de hora em hora. Transformei a Itália em um lugar real, onde as mulheres não tem bom gosto para se vestir, muitos dos costumes me irritam – não mais que os do Brasil - onde reconheço os turistas, onde compreendo e sou compreendida. A França, a minha França, continua num portal imaginário,  onde a beleza e a moda imperam, as pessoas são impecavelmente educadas,  os cortes de cabelo criativos, as crianças comportadas e bem vestidas, as refeições são uma festa, e o ar nicotínico cheira perfume. Sento no banco de frente a parada do ônibus e respiro fundo o ar esfumaçado de cigarro. Começo a correr a caneta no papel e não percebo que meu ônibus passou – espero pelo próximo. Tendo partido e voltado, descobri que a Itália me pertence. Que ela é tão minha casa quanto Nova York e Maringá. E pela primeira vez me sinto desapego – não, não é um erro de escrita - e mesmo que eu nunca mais volte, esta sempre será a minha pátria. Nesse momento me dou conta que encontrei o que não sabia que estava buscando. E me alegro por ter mais duas semanas para viver a minha Itália. It feels good to be back home!

Tuesday, September 13, 2011

O sorriso de Forest Gump

Frequentemente sou confrontada pelo olhar intrigado de pessoas que nunca chegam a me perguntar diretamente o motivo pelo qual estou envolvida em meus projetos. Pessoas a sondarem delicadamente o porque dos meus workshops de literatura, as aulas semanais de violão em Angra, o interesse por cursos intensivos de Yoga…

Porque quase tudo o que nos aprofundamos tem que estar relacionado a dinheiro? Assim como o vaso sanitário não deveria estar no mesmo cômodo que o chuveiro, o trabalho não necessariamente tem que estar ligado as realizações pessoais, mas sim ser apenas uma delas. Mesmo porque ao transformar um sonho em trabalho ele passa a não ser mais sonho e vira trabalho. Levei muitos anos para aprender a devolver o mesmo olhar educado, como quem não esta a entender a pergunta, e assumir que viver é o meu maior projeto, e o trabalho é o  que me possibilita realizá-lo - de forma completa e costurada, assim como os quilts que faço. Tem gente que faz palavra cruzada para manter o cérebo exercitado e sadio. Eu prefiro rasgar a madrugada de frente o computador a brincar com as palavras no meu blog de literatura de viagem. Mais que um diário, baseado em fatos reais ou não, é um flerte com o conto e o fantástico - mesmo que isso implique em não entregar a lição de casa na aula de italiano daqui a algumas horas. 

Viajando, eu não estou só aprendendo uma cultura e uma língua direrentes. Documentar a descoberta das minhas raízes é deixar um legado, não menos importante que plantar uma árvore ou escrever um livro. É ensinar a minha filha o que não se pode aprender na escola: o amor e respeito a si mesmo em primeiro lugar, e jamais abdicar de si em prol de quem quer que seja. E isso também é cidadania.

Adoro o meu trabalho, mecânico e repetitivo como ele é. Sempre gostei de trabalhos repetitivos, como quando trabalhava em um banco na area de aplicação e resgate. Meu primeiro trabalho aos quatrorze anos foi de intrumentadora de destista! Não são poucas as pessoas que ao me perguntarem o que eu faço, reagem a minha resposta com incompreensão e certa ironia, insistindo em saber o que eu realmente faço. “Sim! É isso o que eu faço. Faço reservas da Asalem”. Como quando eu morava em Nova York e trabalhava com o renomado artista plástico brasileiro Daniel Senise, e frequentava festas onde vários outros assistentes na corrida da ascensão e reconhecimento no mundo da arte, falavam sobre seus trabalhos. Quando me perguntavam o que eu fazia eu respondia que era assistente do Senise, e eles insistiam em saber que tipo de trabalho eu estava desenvolvendo, e eu repetia “nenhum, só sou assistente mesmo”. E todos na roda sorriam e se olhavam disfarçadamente como se estivessem de frente o Forest Gump. E eu, para evitar maiores constrangimentos, retribuía o sorriso com olhar de Forest Gump.

Minha relação com a maternidade por exemplo, vai além de padecer no paraíso. A maternidade para mim é um dos projetos que venho trabalhando - estudando, buscando, me superando, criando planilhas e arquivando artigos para que a Aga possa ler no momento apropriado. Há outros projetos de longo prazo que também venho costurando a mão, como meu quilt king size, a 9 anos. Não venderia minha filha, porque me perguntam o que vou fazer com a minha colcha de patchwork? Não, não vou ter outro filho-coitadinha-da-aga, reservas é realmente o que eu faço, não vou abrir uma clínica de psicologia, não tenho intenção de publicar um livro, não quero abrir uma loja de patchwork, nem um ateliê de arte, não pretendo ser tradutora de italiano, nem massagista ou instrutora de yoga, e não desejo abrir uma agência de viagem. Estou feliz exatamente como sou, fazendo exatamente o que faço, rodeada pelas pessoas que escolhi para estarem ao meu lado. E para aqueles que estão inevitavelmente em trânsito, fragmentados e afunilados em uma única escolha, ofereço o meu sorriso abundante em delicadeza e respeito. Afinal, somos todos vítimas do capitalismo do bem-estar social, a encobrir nosso verdadeiro potencial. Salve Henry Ford! 

Monday, September 12, 2011

porque quem tem boca...

Sempre fui o estereótipo da aluna exemplar na escola - até os 10 anos de idade. Dali pra frente algo desandou - um cromossomo sem perna talvez, e passei a me interessar no que aprendia fora dos livros. O apoio `a greve dos professores me estimulava mais do que as regras de concordância verbal. Como saber os pronomes, as preposições de uma língua estrangeira quando não se domina a  sua própria? - para o delírio dos garçons do restaurante onde almoço, ao pedir pomeriggio (tarde) apontando para o pomodoro (tomate). Ambiguamente, tenho uma facilidade muito grande de absorver uma nova língua, porém subjetivamente, como que por osmose. Elas por elas, progresso! O método da ensegnante Carla me serve bem, lavagem cerebral por repetição. 

Sexta-feira. De manhã todos os estudantes da escola visitam a Universit degli Studi di Padova, a segunda universidade mais antiga do mundo onde Galileo Galilei lecionou desde 1592, e Nicholas Copernicus estudou. A sensação que tive foi a de atravessar o portal do Harry Porter, as paredes forradas com o que pareciam brasões de estudantes ilustres, a ouro. A primeira faculdade de medicina com o famoso primeiro teatro de anatomia permanente construído em 1594 onde Gabriele Falloppio descobriu as trompas, as de falópio. Ali, bem no centro do piso do teatro, da onde ficava a mesa onde eram colocados os corpos (oficialmente dois ao ano, sedido pela igreja católica) olho para a estrutura clastrofóbica, e lembro da minha ginecologista. Lugar onde se formou Elena Lucrezia Piscopia, a primeira mulher no mundo a ganhar um diploma universitário – filosofia, por a igreja não permitir mulher em teologia.














Direto da escola para Veneza onde a noite pego o vôo para Roma. No ônibus, pela primeira vez entendo o que Renato Russo vem me dizendo a 16 anos e choro com ele enquanto i campi di lavanda e l’auto che va... Só agora me dou conta que inconscientemente venho me preparando para esta viagem desde criança. Guardando nomes de lugares, fotos rasgadas de revistas, a cópia da certidão de nascimento do meu bisavô, artigos, passagens de filmes, autores e citações, traduções de músicas impressas... Meu material escolar - livros de gramática e dicionário - que vinham mofando na estante desde 2001. Renato Russo traduzido no ipod assim como todos os outros CD’s em italiano. Os inúmeros links, bookmarks - Roma, Veneto, Tosacana, os pratos típicos de cada região, os costumes... Peças avulsas esperando pacientemente para fazerem parte de um só contexto. Meu desejo latente e compassado, imperceptível porém certo e contínuo como a batida de um coração. Ignorar a isso tudo seria eutanásia - o suicídio assistido, a única forma de obter uma morte quotidiana doce e fácil quando se padece da doença terminal decorrente da amargura do sonho não vivido.  Reconheço tanto a sorte quanto as boas escolhas que tenho feito ao longo da vida.  Agradeço por desfrutar um grande amor, pelo homem que me respeita e me aceita como eu sou, me permitindo a continuar a ser. Na noite anterior a minha partida, ele me deu um cartão de aniversário que me emocionou muito; não pela imagem que remete o Cação em sua posição tão peculiar, no nosso barco a caminho da Asalem,  mas pela mensagem que diz em inglês: “Para alguém que sabe como aproveitar o melhor que a vida tem a oferecer - Você ousa sonhar grande, gargalhar profundamente e dar sempre o melhor de si. Espero que celebre este dia ao seu estilo”.  O verdadeiro amor liberta e me sinto completa e privilegiada por viver um amor  absoluto como o nosso.




Vendo a Itália passar pela janela do ônibus, me pego a imaginar os filhos e netos da Aga – na esperança que ela me dê essa alegria – escavando suas origens como faço agora. Talvez estes relatos os inspirem a conquistarem suas próprias buscas. Talvez comecem indo a uma ilha na floresta atlântica e olhem para o que um dia foi a casa onde hoje vivo. 




Chegando em Veneza, passo a tarde labirinteando os becos que costuram os canais congestionados pelas gôndolas, conduzidas por homens aparentemente entediados, sempre a fumar. E inesperadamente me encontro no meio da Piazza San Marco! Não sei se olho para a Basílica ou para Scarlett Johansson segurando uma garrafa de champagne, o ombro próximo aos lábios muito vermelhos e entreabertos. Os dois monumentos da mesma altura, do teto ao chão. Deveria existir uma lei proibindo publicidade em locais de patrimônio histórico cultural! 

Acordo em Roma. Peço informação de qual ônibus pegar para ver os monumentos e sou surpreendida por uma mão a chaqualhar a poucos centímetro do meu nariz, as pontas dos cinco dedos voltados para cima a tocarem-se -  “Roma devi fare a piedi!”. Se quem tem boca vai a Roma, quem tem um iphone com mapa-bússola-localizador, aplicações de pesquisa para hotéis-restaurantes-locais turísticos, dicionário e muito mais!, consegue andar por toda Roma em apenas dois dias. Quem tem um iphone nunca esta sozinho; porém é como ter um amigo já de idade, que dependendo do quão agitado for seu dia, precisa descansar por uma ou duas horas para recarregar as baterias. Ao invés de xingar Steve Jobs de frente a Fontana di Trevi, sou paciente e respeito meu velho e querido amigo cansado.  

A fila colossal para entrar no Colosseo me faz tomar a decisão de apenas andar envolta e admirar a parte externa das ruínas.  Converso com um vendedor que me explica que o coliseu foi construido com dinheiro saqueado dos hebreus. Digo algo do tipo "nossa, que mal..." e ele me responde "sim, mas são hebreus" com as mãos a chaqualhar.  Quando estou passando em frente ao portão de saída aproveito uma momentânea desorganização do segurança, e entro pelo portão dos fundos – por onde desfilavam os gladiadores vencedores a saudar a multidão.  Alguns passos mais e me deparo a um grupo parado em frente a uma guia a dar uma detalhada explicação sobre o lugar, onde ficavam as jaulas dos leões, sentavam-se os VIP’s, o imperador...  Saio pelo mesmo portão, mais sábia e 17 euros menos pobre, rumo ao Phanteon. 

Phanteon

Meu objetivo principal nesta viagem era de testar meu limite estomacal, e passo o sábado ziguezagueando entre restaurantes, cafés, cervejarias, bottegas, trattorias, gelaterias, até que, suando e com náuseas, preciso me encostar em qualquer lugar. Entro na igreja Chiesa di Santa Maria dela Scalla em busca de abrigo. Desabotoo a calça e procuro um banco vazio para me sentar. Longe do burburinho dos turistas, me sinto acalantada pela voz do padre a rezar a missa, intercalando o italiano e o latin, a pregar sobre o perdão. Cinquenta minutos digerindo a comida e exercitando a perdoar, já estava me sentindo bem mais disposta quando ele vai até o fundo da igreja e volta com um cálice e um pratinho, e começa a mergulhar biscoitinhos circulares no vinho. Todos se levantam e formam uma única fila a sua frente, e como num transe, esqueço que nunca me confessei, não sou crismada, nem ao menos fiz primeira comunhão e quando dou por mim, estou com a boca aberta de frente ao padre a enfiar o corpo e o sangue de cristo na minha boca. Faço o sinal da cruz antes de sair da igreja cheia de culpa e perdão, direto para uma pizzaria pois o sabor do vinho me abriu o apetite.


No domingo de 11 Setembro, dentre várias piazze e fontane, visitei o último dia  da exibição "Art Strenght of Unity - Unity Strenght of Art" no Castel Sant'Angelo, com pinturas, móveis e venstimentas datadas desde o período medieval. Parco Gianicolense  é definitivamente meu lugar favorito - um parque muito arborizado com lindos monumentos e uma vista deslumbrante de todo o centro de Roma, com moradores a passear em família, sem o irritante congestionamento barulhento próprio dos turistas. No Vaticano, os raios de sol entram pelas janelas do teto oval da Basílica de S. Pietro, coberto em ouro. Recuperada do choque, subo as intermináveis escadas literalmente em romaria.












De volta a Veneza, são 11h da noite quando entro no primeiro vagão do trem para Padova, e o cobrador pede para um sanfoneiro da Romenia dedicar uma música para mim. Meus pés estão cheios de bolhas, mas se Cristo se sacrificou por mim, nada mais justo eu retribuir o gesto de amor. 


Thursday, September 8, 2011

Mangiamo il pranzo!

Outro achado perto da escola para almoçar. Pasta, frango gordurosamente delicioso e legumes grelhados (infelizmente não conheço nenhuma palavra que consiga descrever o sabor destas jóias), água inclusa. Bom e barato! O vinho é self-service numa máquina como de chopp. Essa jarrinha que serve 2 copos por 1.80 euros - assim fica difícil... 
E sim, a pasta é inacreditavelmente deliciosa, não importa a espelunca que você vá. Quanto menos ingredientes mais saboroso, cozindo no ponto certo! Vai ser frustrante voltar a comer em outro lugar do mundo... 


dr. Morgue - la morte elettiva

Meu novo ídolo - dr. Morgue

- "Porque não ri? Não entende a piada?" 
- "Claro que entendo." "Uma piada é quando uma pessoa diz uma coisa, mas entende o contrário, e este contraste geralmente é divertido para as pessoas de média inteligência."


Wednesday, September 7, 2011

Giustina

A escola fica no centro histórico de Padova, bem próximo a museus, igrejas e inúmeros cafes. Os estudantes são bem diversificados, americano, holandes, chines, japones, russo, africano, venezuelano, espanhol… me sinto confortável em fazer perguntas patéticas com apenas três palavras na frase. A alguns dias, descobri essa focacceria super agradável próximo a escola, que vende pizza in taglia (quadradinhos), rolle (enroladinho de folheado de legume ou queijo), e claro, focaccia. Em media 2.50 euros – perfeito!! A aula esta sendo muito válida, ja estou entendendo quando leio, e tudo comeca a fazer sentido. Para falar e' outra historia, ainda é "mim querer" e mímica. Mas o que importa e' que estou coletando um ótimo material para dar sequência ao estudo  quando voltar para casa. E também tem dicas e costumes que só estou tendo acesso pela convivênvia com a insgnante Carla. Como o Spritz que tomei hoje por exemplo a recomendação dela – uma mistura de prosecco, agua e Aperol - licor adocicado de laranja tipico de Padova. O vinho aqui tambem e’ super em conta e de excelente qualidade então sempre bebo uma taça no almoço, o que acaba aguçando as minhas reações emocionais nas minhas caminhadas pela cidade depois da aula. Nunca sei se choro por conta do que vejo ou do que bebo.





Escolho uma mesinha na rua, com uma igreja ao fundo e as pombas ao redor. A experiência não seria completa sem as pombas. E bastam alguns minutos para eu perceber que estes animais são seres meticulosamente organizados, ágeis e audaciosos que tem como objetivo dominar o mundo. Que em Padova se encontra o centro de treinamento avançado do grupo de elite de operações especiais. Os garçons desatentos a esse fato, chispam as bestas com o que podem, batem o pé, empurram cadeiras, jogam água, e elas continuam calmas e inabaladas. A fumaça me entontece. Mesmo em áreas completamente abertas o ar é denso de fumaça de cigarro. Impossível nao chegar em casa fedendo tanto quanto um fumante. Fico intrigada em saber a estimativa de tempo de vida dos europeus, o índice de cancer, como os seguros de saúde lidam com esse problema… Outra coisa que muito me intriga é saber a taxa de glicose, a pressão arterial desse povo. Como podem manter a forma com tanta massa na dieta?

A massa da pizza, focaccia, pães, tem um outro conceito aqui. Ao menos esta é a minha leitura. O pão não tem como finalidade segurar o recheio. Ele é um ingrediente importante, senão tão, até mais do que o recheio. Ele é para ser degustado e por isso é grosso. Adorei!

Termino a focaccia e o Spritz e saio mansamente sem que as pombas me percebam, logo antes da mesa ser atacada por um novo bando. Entro pela primeira vez em uma Basílica tão linda que até chorei. Certamente vou ver milhões delas daqui para frente, mas a primeira emociona. Baílica de Santa Giustina, padroeira de Padova. Giustina… se tivesse outra filha daria esse nome.



 


A lingua e os costumes não são tudo o que estou aprendendo nesta viagem. Em meio a artigos indefinidos , verbos regulares, pronomes e reservas da Asalem, não sobra muito tempo nem neurônio para literalizar o blog tanto quanto eu gostaria. E libertando-o, liberto a mim. E é com a mesma frieza com que eu escorrego meu italianês nas ruas, na classe e em casa, que eu fecho meu computador agora, as três da manhã. Buona sera.

Tuesday, September 6, 2011

Compleanno - o psêudo aniversário

Quando morava em Nova York, adorava assistir um programa de longa duracao so’ de imagens aéreas de lugares deslumbrantes do mundo, provavelmente feitas de um helicóptero. Europa na grande maioria. Sem narração, apenas uma música instrumental bem brega. Costumava olhar para cada detalhe atentamente como se estivesse realmente sobrevoando o lugar. Isso me trazia um certo conforto quando o trabalho ou a falta de dinheiro (que o que para mim significam a mesma coisa) me obrigavam  a me ancorar. Um desses programas foi sobre Limone, no Lago de Garda – Italia. Naquela noite tive a certeza que um dia eu iria `aquele lugar, não importava quantos anos passassem. Sem pressa nenhuma, venho carregando essa certeza comigo a 11 anos.

Acordo cedo no domingo do meu aniversário e sigo direto para a estação de trem. Lá descubro que o Lago de Garda fica a pouco mais de 1h de Padova. Peço 2 bilhetes `a vendedora, ida e volta. Haviam poucos horários e o próximo era a dez minutos. Tudo indicava que seria mais um daqueles dias extraordinários onde o universo conspira a seu favor - salve Paulo Coelho! Assim que entrei no trem o tempo começou a fechar e esfriou. Quando cheguei começou a chover mas deu para andar até o Lago, porque nao havia nehum taxi, nenhum ônibus e nenhum posto de informação num lugar turístico como aquele. Bem turístico! Repleto de alemães, ingleses, vários daqueles tipos branquelos com a câmera pendurada no pescoço e o mapa na mão. Na beira do lago alguns restaurantes para agradar gringo, caros e sem apelo. La pelas 14h resolvo voltar a Padova, mas tenho que esperar a chuva desabar do céu embaixo de um ponto de ônibus municipal que nunca passou, por quase duas horas – em pé. O ticket de retorno estava marcado para 21:30h. O sistema de transporte aqui e’ no mínimo curioso. Nos ônibus municipais e intermunicipais por exemplo, você entra e coloca o seu bilhete numa espécie de máquina de bater ponto, não há supervisão. Assim também foi a minha experiência na ida, o mesmo tipo de máquina que você autentica sozinho na plataforma antes de partir. Não vi nenhum problema em pear o trem mais cedo. Bilhete em mãos na plataforma, percebo que nele esta escrito due adulti. Vou até o guichê para checar e realmente fui cobrada por dois pois foi o que a vendedora entendeu quando eu disse “dois: ida e volta”. Não podiam me reembolsar, nem pelo bilhete que não havia sido usado ainda. Paciência, não iria estragar meu aniversario por causa de uma viagem furada e 14 euros. No vagão, fui acordada pelo fiscal do trem que pede pelo meu bilhete e diz que tenho que pagar a diferença pois aquele era um trem expresso. Ele diz que não pode descontar a diferença mesmo eu tendo pago por 2 ao inves de 1, e me cobra mais 11 euros. Lembrando que a quotacao do Euro esta 2.4! Procuro me focalizar na data festiva, so’ uma vez ao ano, não ia valer a pena estressar. Chegando em Padova ja a noite, fiquei tentada em ir para casa descansar pois estava acabada, mas dormir cedo no dia do aniversario, principalmente depois de um dia frustrante daquele? Estava disposta a conserta-lo e fui para o mesmo evento patrocinado pela Porsche do show da noite anterior, onde a cantora  Sevara Nazarkhan do Uzbekistão se apresentaria. Três músicas depois me levanto e decido ir para casa, nada especial. A chuva desabava fora do anfiteatro mas o segurança me chamou um taxi e, pasmem, o taxímetro gira a 5 centavos por SEGUNDO!!! Chego em casa  quatorze euros depois - quarenta euros mais pobre porém seca. E tenho que ficar pendurada no computador ate’ as 3h da manhã para resolver uma reserva problema da Asalem. Não consegui dormir rápido pois estava preocupada em conseguir acordar as 6:30h para ter a primeira aula do curso.

Não tenho fotos para postar sobre esse dia. Primeiro porque não tirei nenhuma, e segundo porque em minha memória, o dia que celebrei meu aniversario foi o anterior. Talvez seja coisa de horóscopo, a posição dos astros… Ou talvez porque nem sempre se pode ter tudo. Ou que as vezes o melhor a fazer e’ sonhar em ir a Meca e fazer com que este sonho nos impulsione na vida, sem necessariamente chegar a ir a Meca um dia.  Sonhar em ir ao Lago di Garda e’ como sonhar em ir para Balneário Camboriu. Quem conhece sabe do que estou falando.  Entre ir a Meca ou sonhar com ela, escolho ir. Andiamo!

Monday, September 5, 2011

il secondo giorno - de volta as raízes


Acordo ensopada de calor, porém nova em folha! Vou até a cozinha e tento puxar conversa com a garota segurando a toalha atras das costas com uma mão enquanto cozinha com a outra.  Entre mímicas e inúmeras repetições ela me diz que esta para chegar uma outra estudante, do Japão. Aproveito um momento em que todos estão ocupados e sondo a casa a procura do quarto livre: muito maior, mais arejado, mobiliado e iluminado; com escritório, TV, guarda-roupa e várias estantes. Mais do que depressa, antes que a japonesa chegasse, arrasto meu italianês explicando para Signora Franca que quero trocar de quarto. O motivo: muito quente! Signora Franca me explica que a garota vai ficar alojada por dois meses e meu programa e' so' por um mês, que seria inconveniente ela se mudar na metade da estadia dela, etc. Como um personagem pastelão, fico a repetir com um sorriso plástico no rosto "troppo caldo!". Intercalando-se a minha repetição, ela segue seu discurso, e eu pra despistar até português começo a falar com ela, sempre repetindo vez ou outra "troppo caldo!". Ela se mostra irrelutante, diz que nao e' possivel, e eu então começo a soltar palavras em italiano: cozinha ao lado do meu quarto/barulho/minha janela/pessoas jantando/tv/incomoda/cigarro/pequeno; e finalizo firmemente: "troppo caldo!". Ela cessa, me olha por um longo e silencioso segundo e me diz enquanto sai: "va benne". A japonesa vai ficar bem no quartículo.

Mais do que depressa transfiro todos os meus pertences de uma so' vez - na Sensonite, onde tem espaco de sobra para ela ficar. Espalho tudo em todos os cantos do quarto como um cachorro a mijar marcando o seu territorio, e saio. Direto para a estação central, onde saem ônibus locais e intermunicipais e trens. Lá descubro que Camposampiero fica a uma hora de Padova. Enfim, vou conhecer o lugar onde meus tataravós trabalharam a terra para alimentar meu bisavô Valentino Giuseppe Furlan, lá nascido em 1878 e enterrado no Brasil, responsável pela minha existência e nacionalidades brasileira e italiana. 

Camposampiero e' um lindo e pequeno vilarejo, limpo e extremamente vazio para um sábado. Com o xerox da certidão de nascimento do meu bisavô em mãos, vou entrando nos poucos comércios abertos a procura da Via Rustega, 34 – endereço impresso na certidão. Descubro que e' um outro vilarejo, ainda menor, a 3km dali, pertencente a Camposampiero, que por sua vez e' um vilarejo que pertence a cidade de Padova, entao tente imaginar de que tamanho de vilarejo estamos falando aqui. Sob um sol escaldante, peço informacão a um senhor fechando a mercearia, que me oferece uma carona. Ele me deixa em frente a casa 34, bem no início do vilarejo. Fico ali parada olhando para a casa e para o campo ao redor, imaginando meu bizavô arando a terra, as crianças a nadar no rio que corta o campo. Filmo a casa e o campo num breve 360º. 





Pego a estrada de terra que permeia a casa e adentra o campo. Procuro apagar as interferências urbanas. Saio da estrada coberta por pedrinhas de brita para pisar o mato que cobre a terra. Vejo meus tataravós no meio das  plantações, ceifando a colheita, a carroça com as crianças arrumadas indo pra missa no domingo de manhã.  Duas da tarde e so' então percebo que estou com fome. E bem ali, no meio do nada, avisto uma pequena plantação repleta de uvas maduras e muito doces, sem cercado. Colho um cacho bem farto e o beijo antes de comê-lo sem lavá-lo, enquanto procuro uma sombra para sentar `a beira do riacho. Ainda, as melhores coisas na vida são de graça… 




Celebro meu nascimento no mesmo lugar onde a 133 anos atras meu bisavô nascia. Minhas lágrimas molham a terra e eu  me permito sonhar que estou dando sequência a essa história, nossa historia, na terra que acabo de regar e semear as sementes da uva que cuspo. É para ele que estou aqui hoje, e é a ele a quem dedico meu trigésimo oitavo ano de vida. Me levanto e volto para a estrada principal e sigo até o centro do vilarejo para procurar um lugar para almoçar. E para a minha surpresa, encontro um café muito elegante onde sento e como um sanduíche de rúcula com carne de cavalo desfiada e uma taça de prosecco. 




Lá descubro que não existe via Rustega. Que Rustega e' o nome do vilarejo e não da avenida principal. E me dou conta que em 1878 havia ali apenas uma rua, talvez uma picada no meio do mato. E aquela casa não era a casa dele… mas o que importava? Talvez fosse. Como quando visitei o lugar sagrado onde Jesus foi crucificado em Jerusalem. Se servia para Cristo, serviria para ele também! Duas bolas de getato -tiramisu e melancia, e sigo para o pequeno cemitério a poucos metros de distância, onde o vilarejo se acaba.  




Olho cada uma das lápides e encontro Marcellina Furlan. E para a minha surpresa, vários Galdino's. Marcellina Furlan… 







O sol começa a se apagar. Sigo minha via crucis e no caminho encontro com uma senhora muito amável que obriga um casal de adolescentes a me levar de carro de volta a Camposampiero, que meio a contragosto me deixam na estação onde pego o ônibus de volta para Padova. 



O crème gelato de café que tomei antes de embarcar me deixou agitada, não queria voltar pra casa `as 8 da noite, com o céu ainda claro. Meu corpo não tolera cafeina, o que esta sendo um grave problema pra mim, pois o café ou qualquer coisa feita de café aqui, e' absurdamente irresistível. Toda a fama do espresso italiano e' justa e merecida! Da estação sigo a uma espécie de antigo mini coliseu onde de manhã, vi que tinha um telão montado – talvez fosse uma apresentação de um filme. Era um concerto patrocinado pela Porsche, de uma cantora muito loca originária de uma tribo nômade chamada Tuva, na Sibéria. Uma senhora, que entrou usando um disco de vinil como chapéu (o seu próprio disco). Caso sobrassem assentos eles iriam distribuir números de senhas para não pagantes entrarem. Como os últimos são sempre os primeiros, e por estar sozinha, eles me encaixaram bem no meio da segunda fila, de frente ao palco. E de lá, completamente atônita, assisto ao concerto mais emocionante da minha vida! A artista canta com a garganta como faz o seu povo na divisa com a Monólia, e sua banda formada por quatro integrantes de diversas partes do mundo tocam instrumentos anciões de forma inovadora. Rock pesado saía do violino e de um outro instrumento parecido com uma pequena guitarra antiga chinesa. Acho que minha expressão era tão patética que o pessoal todo da banda devia achar intrigante e so' interagia comigo, um show particular! Não consegui conter as lágrimas quando ela traduzia parte das canções, que descreviam os sentimentos que me invadiram naquela tarde. Uma das musicas entitulada "I born" (assim mesmo, sem  "was " ou "am") que fala sobre andar o mundo e poder voltar a terra onde tudo se originou; outra musica, onde o refrão dizia "I dream, I walk, till the cows come home". Nao podia acreditar, e mais uma vez tive que dar o braço a torcer ao Paulo Coelho a quem eu odeio e respeito. Compro o CD e um disco vinil com a gravação solo somente `a voz da Sainkho Namtchylak, que assina uma dedicatória ao Andre (nao postei nenhum video do youtube pois a parceria com a banda é nova assim como o material apresentado no concerto, ainda não gravado em CD). Peço para o guitarrista-violinista a palheta, para engordar minha coleção. E e' nesse estado de graça que volto para casa logo após a meia-noite do dia 4 de Setembro, meu aniversario. Encontro a Signora Franca em casa mas em silêncio. A tv da cozinha desligada. A porta do meu lindo e espaçoso quarto aberta para o ar-condicionado do corredor entrar. Encho um copo de prosecco e ligo para o Andre pelo skype, que junto com a Aga, minha sobrinha e o meu irmão - que depois de 20 anos separados agora mora comigo desde o Tsunami do Japão, cantam parabéns enquanto assopro uma velinha em cima de uma fatia de pizza. Life is good. 

Sunday, September 4, 2011

ITALIA - il primo giorno


Enfim Padova!

Foi tudo meio facil meio dificil. As malas, o onibus, o outro onibus, as informacoes peneiradas pelo livreto  de bolso…

Nao vejo a hora da aula começar pra eu entrar numa rotina. A casa e' legal mas nao e'. A senhora da casa e' super querida, demais pro meu gosto, bem filme italiano mesmo. Ela e' sozinha mas nao e', tem sempre um amigo pra jantar com ela, um sobrinho bebê, alguem. Na falta de alguem as vozes da tv lhe fazem compania. Amanha chega outra aluna do Japao na casa. E antes de mim ja tinha essa garota de seios fartos, não grandes, fartos. Do oriente medio, iraniana, sei la da onde, e' toda cheia de querer ser doidinha, do tipo descontraidamente sexy, incorporou Sophia Loren. Canta alto o tempo todo e nao importa a que hora que voce entra em casa ela esta ou indo ou saindo do banho pra la e pra ca com a  toalha pendurada pelos seios, segurando as duas pontas nas costas com uma so' mao, na altura da bunda, a toalha escorregando e ela pedindo desculpas sorrindo. Juro que seu eu falasse alguma coisa que alguem entendesse eu diria pra ela "olha, eu posso te emprestar uma roupa caso voce nao tenha…"

Minha ultima noite em NY dormi so' 3 horas para nao deixar nada por fazer, e nao consegui tirar nem um cochilo no assento da fileira do meio do aviao. Para vencer o cansaço e nao me render ao sono incontrolavel as 2 da tarde, me aventuro pela cidade para ja entrar de vez no fuso local. Il bus, la ztazione, il centro citt`a, piazzas, chiezas, scuzi no parlo italiano molto bene, accettate la carta di credito? Andre nas vitrines, nas pedras das escadarias antigas das ruas estreitas, nas mesas dos cafes que nao cheguei a sentar...

Chego em casa com comprinhas que sempre simbolizaram essa viagem - nos meus devaneios sempre tinha um queijo fidido, um presunto bem escuro, proseco, proseco… o pao ficava a deriva no sonho, numa especie de purgatorio da minha imaginacao esperando para ganhar formas e sabores. Estava tudo ali, embalados com folhas de papel,  dentro das varias sacolinhas plasticas. Assim que entrei a Signora Franca avançou nas sacolas, abriu tudo e disse para eu nao ficar intimidada, para por tudo no centro da mesa afinal eu estou na minha casa. Eu tentando despistar para jantar no meu quarto enquanto checo os emails e ouço uma musiquinha - o que na verdade seria impossivel porque a televisao da cozinha que fica ao lado do meu quarto fica ligada permanentemente. Digo para ela nao se incomodar pois eu nao gosto de comer com tv ligada, que na verdade eu nao gosto de tv. Ela desliga a tv e com as mãos sob os meus ombros me senta defrente a mesa da cozinha enquanto sou bombardeada por perguntas que nao consigo responder. Mais de trinta horas acordada, eu zumbizônica de frente a uma Signora Franca falando italianamente, o interrogatorio intercalado entre ela e o amigo que tem uma filha que estuda em Natal. 

Todos os livros que estudei antes de chegar me foram de muita utilidade. Para entender. Na hora de falar so' sai espanhol. Nao inglês, nao português. Espanhol. Nao me pergunte porque. Eles falam, falam, falam, e eu nao posso dizer que eles estao me entendendo errado, que nao e' nada daquilo. Inútil, deixo eles pensando que eu falei o que nao disse e sorrio muito, a unica palavra que sai e' "ok, ok, ok…." entre os risos. Proseco e jetleg.

A iraniana, paquistanesa, sei la, fumando na sacada que da de frente para a minha janela e a fumaça entrando e eu dizendo que sou alérgica, pedindo para ela procurar outro lugar pra fumar. Ela nao consegue me ouvir logo de primeira, Signora Franca e o amigo jantando italianamente ao seu lado na sacada, a garota entao chega bem perto pra poder me ouvir, o cigarro no parapeito da minha janela. A toalha escorrega e ela pede desculpas sorrindo. Lavo a louça que sujei. Volto da cozinha e a Signora Franca esta no meio do meu quarto falando que minha Sensonite vai ter que sair pois assim esta tomando muito espaço. O meu espaço, por Cristo! Seguimos num duo monólogo ambas com caras patéticas. Nao sei bem que lingua falei que a mala ficava onde estava, so' sei que ela entendeu e saiu do quarto.

Estou cansada… preciso dormir.