Enfim Padova!
Foi tudo meio facil meio dificil. As malas, o onibus, o outro onibus, as informacoes peneiradas pelo livreto de bolso…
Nao vejo a hora da aula começar pra eu entrar numa rotina. A casa e' legal mas nao e'. A senhora da casa e' super querida, demais pro meu gosto, bem filme italiano mesmo. Ela e' sozinha mas nao e', tem sempre um amigo pra jantar com ela, um sobrinho bebê, alguem. Na falta de alguem as vozes da tv lhe fazem compania. Amanha chega outra aluna do Japao na casa. E antes de mim ja tinha essa garota de seios fartos, não grandes, fartos. Do oriente medio, iraniana, sei la da onde, e' toda cheia de querer ser doidinha, do tipo descontraidamente sexy, incorporou Sophia Loren. Canta alto o tempo todo e nao importa a que hora que voce entra em casa ela esta ou indo ou saindo do banho pra la e pra ca com a toalha pendurada pelos seios, segurando as duas pontas nas costas com uma so' mao, na altura da bunda, a toalha escorregando e ela pedindo desculpas sorrindo. Juro que seu eu falasse alguma coisa que alguem entendesse eu diria pra ela "olha, eu posso te emprestar uma roupa caso voce nao tenha…"
Minha ultima noite em NY dormi so' 3 horas para nao deixar nada por fazer, e nao consegui tirar nem um cochilo no assento da fileira do meio do aviao. Para vencer o cansaço e nao me render ao sono incontrolavel as 2 da tarde, me aventuro pela cidade para ja entrar de vez no fuso local. Il bus, la ztazione, il centro citt`a, piazzas, chiezas, scuzi no parlo italiano molto bene, accettate la carta di credito? Andre nas vitrines, nas pedras das escadarias antigas das ruas estreitas, nas mesas dos cafes que nao cheguei a sentar...
Chego em casa com comprinhas que sempre simbolizaram essa viagem - nos meus devaneios sempre tinha um queijo fidido, um presunto bem escuro, proseco, proseco… o pao ficava a deriva no sonho, numa especie de purgatorio da minha imaginacao esperando para ganhar formas e sabores. Estava tudo ali, embalados com folhas de papel, dentro das varias sacolinhas plasticas. Assim que entrei a Signora Franca avançou nas sacolas, abriu tudo e disse para eu nao ficar intimidada, para por tudo no centro da mesa afinal eu estou na minha casa. Eu tentando despistar para jantar no meu quarto enquanto checo os emails e ouço uma musiquinha - o que na verdade seria impossivel porque a televisao da cozinha que fica ao lado do meu quarto fica ligada permanentemente. Digo para ela nao se incomodar pois eu nao gosto de comer com tv ligada, que na verdade eu nao gosto de tv. Ela desliga a tv e com as mãos sob os meus ombros me senta defrente a mesa da cozinha enquanto sou bombardeada por perguntas que nao consigo responder. Mais de trinta horas acordada, eu zumbizônica de frente a uma Signora Franca falando italianamente, o interrogatorio intercalado entre ela e o amigo que tem uma filha que estuda em Natal.
Todos os livros que estudei antes de chegar me foram de muita utilidade. Para entender. Na hora de falar so' sai espanhol. Nao inglês, nao português. Espanhol. Nao me pergunte porque. Eles falam, falam, falam, e eu nao posso dizer que eles estao me entendendo errado, que nao e' nada daquilo. Inútil, deixo eles pensando que eu falei o que nao disse e sorrio muito, a unica palavra que sai e' "ok, ok, ok…." entre os risos. Proseco e jetleg.
A iraniana, paquistanesa, sei la, fumando na sacada que da de frente para a minha janela e a fumaça entrando e eu dizendo que sou alérgica, pedindo para ela procurar outro lugar pra fumar. Ela nao consegue me ouvir logo de primeira, Signora Franca e o amigo jantando italianamente ao seu lado na sacada, a garota entao chega bem perto pra poder me ouvir, o cigarro no parapeito da minha janela. A toalha escorrega e ela pede desculpas sorrindo. Lavo a louça que sujei. Volto da cozinha e a Signora Franca esta no meio do meu quarto falando que minha Sensonite vai ter que sair pois assim esta tomando muito espaço. O meu espaço, por Cristo! Seguimos num duo monólogo ambas com caras patéticas. Nao sei bem que lingua falei que a mala ficava onde estava, so' sei que ela entendeu e saiu do quarto.
Estou cansada… preciso dormir.
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