Monday, September 12, 2011

porque quem tem boca...

Sempre fui o estereótipo da aluna exemplar na escola - até os 10 anos de idade. Dali pra frente algo desandou - um cromossomo sem perna talvez, e passei a me interessar no que aprendia fora dos livros. O apoio `a greve dos professores me estimulava mais do que as regras de concordância verbal. Como saber os pronomes, as preposições de uma língua estrangeira quando não se domina a  sua própria? - para o delírio dos garçons do restaurante onde almoço, ao pedir pomeriggio (tarde) apontando para o pomodoro (tomate). Ambiguamente, tenho uma facilidade muito grande de absorver uma nova língua, porém subjetivamente, como que por osmose. Elas por elas, progresso! O método da ensegnante Carla me serve bem, lavagem cerebral por repetição. 

Sexta-feira. De manhã todos os estudantes da escola visitam a Universit degli Studi di Padova, a segunda universidade mais antiga do mundo onde Galileo Galilei lecionou desde 1592, e Nicholas Copernicus estudou. A sensação que tive foi a de atravessar o portal do Harry Porter, as paredes forradas com o que pareciam brasões de estudantes ilustres, a ouro. A primeira faculdade de medicina com o famoso primeiro teatro de anatomia permanente construído em 1594 onde Gabriele Falloppio descobriu as trompas, as de falópio. Ali, bem no centro do piso do teatro, da onde ficava a mesa onde eram colocados os corpos (oficialmente dois ao ano, sedido pela igreja católica) olho para a estrutura clastrofóbica, e lembro da minha ginecologista. Lugar onde se formou Elena Lucrezia Piscopia, a primeira mulher no mundo a ganhar um diploma universitário – filosofia, por a igreja não permitir mulher em teologia.














Direto da escola para Veneza onde a noite pego o vôo para Roma. No ônibus, pela primeira vez entendo o que Renato Russo vem me dizendo a 16 anos e choro com ele enquanto i campi di lavanda e l’auto che va... Só agora me dou conta que inconscientemente venho me preparando para esta viagem desde criança. Guardando nomes de lugares, fotos rasgadas de revistas, a cópia da certidão de nascimento do meu bisavô, artigos, passagens de filmes, autores e citações, traduções de músicas impressas... Meu material escolar - livros de gramática e dicionário - que vinham mofando na estante desde 2001. Renato Russo traduzido no ipod assim como todos os outros CD’s em italiano. Os inúmeros links, bookmarks - Roma, Veneto, Tosacana, os pratos típicos de cada região, os costumes... Peças avulsas esperando pacientemente para fazerem parte de um só contexto. Meu desejo latente e compassado, imperceptível porém certo e contínuo como a batida de um coração. Ignorar a isso tudo seria eutanásia - o suicídio assistido, a única forma de obter uma morte quotidiana doce e fácil quando se padece da doença terminal decorrente da amargura do sonho não vivido.  Reconheço tanto a sorte quanto as boas escolhas que tenho feito ao longo da vida.  Agradeço por desfrutar um grande amor, pelo homem que me respeita e me aceita como eu sou, me permitindo a continuar a ser. Na noite anterior a minha partida, ele me deu um cartão de aniversário que me emocionou muito; não pela imagem que remete o Cação em sua posição tão peculiar, no nosso barco a caminho da Asalem,  mas pela mensagem que diz em inglês: “Para alguém que sabe como aproveitar o melhor que a vida tem a oferecer - Você ousa sonhar grande, gargalhar profundamente e dar sempre o melhor de si. Espero que celebre este dia ao seu estilo”.  O verdadeiro amor liberta e me sinto completa e privilegiada por viver um amor  absoluto como o nosso.




Vendo a Itália passar pela janela do ônibus, me pego a imaginar os filhos e netos da Aga – na esperança que ela me dê essa alegria – escavando suas origens como faço agora. Talvez estes relatos os inspirem a conquistarem suas próprias buscas. Talvez comecem indo a uma ilha na floresta atlântica e olhem para o que um dia foi a casa onde hoje vivo. 




Chegando em Veneza, passo a tarde labirinteando os becos que costuram os canais congestionados pelas gôndolas, conduzidas por homens aparentemente entediados, sempre a fumar. E inesperadamente me encontro no meio da Piazza San Marco! Não sei se olho para a Basílica ou para Scarlett Johansson segurando uma garrafa de champagne, o ombro próximo aos lábios muito vermelhos e entreabertos. Os dois monumentos da mesma altura, do teto ao chão. Deveria existir uma lei proibindo publicidade em locais de patrimônio histórico cultural! 

Acordo em Roma. Peço informação de qual ônibus pegar para ver os monumentos e sou surpreendida por uma mão a chaqualhar a poucos centímetro do meu nariz, as pontas dos cinco dedos voltados para cima a tocarem-se -  “Roma devi fare a piedi!”. Se quem tem boca vai a Roma, quem tem um iphone com mapa-bússola-localizador, aplicações de pesquisa para hotéis-restaurantes-locais turísticos, dicionário e muito mais!, consegue andar por toda Roma em apenas dois dias. Quem tem um iphone nunca esta sozinho; porém é como ter um amigo já de idade, que dependendo do quão agitado for seu dia, precisa descansar por uma ou duas horas para recarregar as baterias. Ao invés de xingar Steve Jobs de frente a Fontana di Trevi, sou paciente e respeito meu velho e querido amigo cansado.  

A fila colossal para entrar no Colosseo me faz tomar a decisão de apenas andar envolta e admirar a parte externa das ruínas.  Converso com um vendedor que me explica que o coliseu foi construido com dinheiro saqueado dos hebreus. Digo algo do tipo "nossa, que mal..." e ele me responde "sim, mas são hebreus" com as mãos a chaqualhar.  Quando estou passando em frente ao portão de saída aproveito uma momentânea desorganização do segurança, e entro pelo portão dos fundos – por onde desfilavam os gladiadores vencedores a saudar a multidão.  Alguns passos mais e me deparo a um grupo parado em frente a uma guia a dar uma detalhada explicação sobre o lugar, onde ficavam as jaulas dos leões, sentavam-se os VIP’s, o imperador...  Saio pelo mesmo portão, mais sábia e 17 euros menos pobre, rumo ao Phanteon. 

Phanteon

Meu objetivo principal nesta viagem era de testar meu limite estomacal, e passo o sábado ziguezagueando entre restaurantes, cafés, cervejarias, bottegas, trattorias, gelaterias, até que, suando e com náuseas, preciso me encostar em qualquer lugar. Entro na igreja Chiesa di Santa Maria dela Scalla em busca de abrigo. Desabotoo a calça e procuro um banco vazio para me sentar. Longe do burburinho dos turistas, me sinto acalantada pela voz do padre a rezar a missa, intercalando o italiano e o latin, a pregar sobre o perdão. Cinquenta minutos digerindo a comida e exercitando a perdoar, já estava me sentindo bem mais disposta quando ele vai até o fundo da igreja e volta com um cálice e um pratinho, e começa a mergulhar biscoitinhos circulares no vinho. Todos se levantam e formam uma única fila a sua frente, e como num transe, esqueço que nunca me confessei, não sou crismada, nem ao menos fiz primeira comunhão e quando dou por mim, estou com a boca aberta de frente ao padre a enfiar o corpo e o sangue de cristo na minha boca. Faço o sinal da cruz antes de sair da igreja cheia de culpa e perdão, direto para uma pizzaria pois o sabor do vinho me abriu o apetite.


No domingo de 11 Setembro, dentre várias piazze e fontane, visitei o último dia  da exibição "Art Strenght of Unity - Unity Strenght of Art" no Castel Sant'Angelo, com pinturas, móveis e venstimentas datadas desde o período medieval. Parco Gianicolense  é definitivamente meu lugar favorito - um parque muito arborizado com lindos monumentos e uma vista deslumbrante de todo o centro de Roma, com moradores a passear em família, sem o irritante congestionamento barulhento próprio dos turistas. No Vaticano, os raios de sol entram pelas janelas do teto oval da Basílica de S. Pietro, coberto em ouro. Recuperada do choque, subo as intermináveis escadas literalmente em romaria.












De volta a Veneza, são 11h da noite quando entro no primeiro vagão do trem para Padova, e o cobrador pede para um sanfoneiro da Romenia dedicar uma música para mim. Meus pés estão cheios de bolhas, mas se Cristo se sacrificou por mim, nada mais justo eu retribuir o gesto de amor. 


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