Sigo até o museu que em 1865 abrigou a sede do governo da Italia, onde pinturas renascentistas cobriam as paredes e o teto, adornado em ouro. Saio do museu e antes de alcançar o mapa dentro da bolsa, vejo através do tráfego humano dos turistas, uma pacata ruela do outro lado da praça. Quase que por extinto (e meu reflexo afiado, sem falsa modéstia) aproveito uma lacuna na multidão e me infiltro entre os passantes, conseguindo atravessar até o outro lado. Conforme vou adentrando a pequena rua com roupas e lençóis pendurados entre o estreito dos prédios baixos, o burburinho da multidão vai se diluindo atrás de mim. Até que um número me chama a atenção: “1865”. Diminuo o passo e chego mais perto da portícula adornada com inúmeros adesivos de recomendações gastronômicas de consagração mundial. Na vitrine uma peça do que parecia ser uma sobre-coxa bovina, crua e sanguinolenta. Sede del Premio Letterario Chianti Ruffino Antico Fattore. As palavras Chianti e Letterario me agradaram, e adentro timidamente a pequena bodega, abrindo caminho entre as pessoas que bloqueiam a entrada - obviamente moradores, e faço um reserva - o tempo de espera aproximadamente de vinte minutos. E foi como se aquela reserva tivesse reformulado a minha concepção de medida de tempo. Caminho calmamente entre os becos quase me perdendo nos labirintos dos arredores. De volta a Trattoria Antico Fattore, alguns minutos adiantada por via das dúvidas, e sou logo direcionada a ponta de uma mesa comprida onde um grupo de 3 casais na outra ponta, celebram o vinho, o chiar da carne na chapa, ou apenas o fato de terem conseguido uma mesa no restaurante tão disputado. O olhar sério e quase despresível do garçom aponta o meu lugar. Cada vez que ele passava por mim, a caminho de buscar ou levar um pedido de uma mesa para a cozinha, ele me atendia. E assim, a prestação, ia pegando o meu pedido – água com gás, uma taça do vinho tinto, a cestinha de pães, os talheres. Ele enfim para de frente a minha mesa - ou parte dela, e pergunta se já sei o que eu quero sem tirar os olhos do seu bloquinho de anotações. Sem ter tocado o cardápio, peço o prato típico da casa, sem querer saber o que é. Bem passado ou ao ponto?, interroga o meu carrasco. Ao sangue, respondo infantilmente. Foi como se ao pronunciar aquelas duas palavras, o mundo como o conhecemos fosse desmascarado, como se eu tivesse soletrado uma espécie de senha secreta que revela toda a doçura e podridão humana. Ele abaixa o bloqueto de papel e pela primeira vez me enxerga, e sem pressa leva seu meio sorriso até a cozinha. E entendo que naquele momento conquistei o seu respeito e confiança. Minha caneta emprestava o vermelho aos espaços vazios do voucher do hotel, concebia a vida a mais um post do blog, com o sangue da tinta e do vinho. É quando desce a minha frente o mais grosso dos filets, ainda cantando em brasa, com enormes cogumelos porcini a enfeitar a sua entrada. O pão lustrou o prato, enxugou as pocinhas de sangue que ilhavam a tagliata de manzo. Meu guardanapo de tecido, grande e pesado, comunicou o fim da minha passagem, e num instante o prato vazio é retirado da minha frente. Nos olhamos com cumplicidade e ele me traz a conta. Ambos sabíamos que a minha história ali havia chegado ao fim. E repletos desse amor, conformista e incondicional, aceitamos o oposto dos nossos caminhos.
Já é noite quando estou de volta a agitação da ruas. Não tiro o mapa na bolsa, e deixo o GPS do iphone me acompanhar de volta ao hotel. Sábado ia ser diferente. Levantaria bem cedo e as 7:30h já estaria na fila do Uffizi. E assim foi. Como estava orgulhosa de mim, apenas algumas dezenas de pessoas a minha frente na fila de entrada do grande museu onde frescoes de Da Vinci, Giotto e Botticelli me esperavam... Já no meio do dia, desidratada e desnutrida e sem tempo a perder, sigo para a Basílica de Santa Cruce, e lá descubro o porque de uma igreja cobrar entrada - um verdadeiro museu! Roubo alguns minutos do itinerário e os dedico a uma taça de chianti e um panino de presunto cru com pastinha de alcachofra no All'antico Vinaio. Aliás uma segunda taça de vinho não iria causar grande alteração no itinerário...
Tudo estava indo de acordo com a meta traçada. O compasso do relógio embalava os meus passos. Foi quando uma loja de discos, muito simples e sem toques decorativos me chamou a atenção. O GPS do iphone me avisa que posso emprestar uns dois ou três minutos para dar uma rápida espiadela no pequeno estabelecimento. O vendedor, em seus cinquenta e tantos anos, segue meu passo apressado entre os discos, tentando me explicar que o Duomo ficava mais afrente, logo após a praça – uma turista perdida! Eu o tranquilizo dizendo alguns nomes de músicas italianas que tenho no iphone, e lá pelo quinto ou sexto disco que ele me mostra, finalmente estamos sintonizados, ele entende o meu gosto!: balada de amor brega do fim dos anos 60, ópera rock dos anos 70. Enquanto eu escutava um disco com o fone de ouvido, ele voltava do fundo da loja com mais outros e quanto mais eu escutava mais ele trazia e assim fomos construindo a nossa história. Cento e trinta euros mais tarde e os fones de ouvido desconectados do aparelho com o volume ao máximo, encerramos nossa trilha sonora e sigo de volta as ruas. Reinicio a minha maratona e apressada, busco no google o horário de funcionamento do Duomo, e diminuindo o passo, aproveito a página do site para olhar as fotos do que não iria ver de perto, enquanto admiro o prédio fechado do lado de fora.
Estar em Florença é como ver o mar pela primeira vez. Uma imensidão impossível de se descrever com palavras. É o encontro com Deus. É Deus materializado nas ondas, é a abundância que não se cabe dentro de si. E depois de dois dias olhando tanto mar e tanta onda, tudo aquilo se torna um mundarel de água, e o inconcebível cede espaço para a náusea. Pego um ônibus urbano sem saber para onde ele vai a procura de fumetes (gibis) e bem longe dos flashes me vejo entre idosos, adolescentes voltando da escola, rostos cansados das longas horas de trabalho. Pela janela surgem casas reais. Duas horas depois, o mesmo ônibus me leva de volta a turislândia e saio a procura de um lugar não turístico para comer. Pizza e chianti! - novamente a expectativa em busca da perfeição, a mistura perfeita para uma experiência decepcionante. Passo em frente a uma mega livraria e decido entrar, já que não havia encontrado uma fumeteria fedorenta, empoeirada e escura... Foi como se aquela porta de vidro automática tivesse se aberto para uma outra dimensão onde a única língua permitida era o italiano, e mesmo assim, muito restrita tanto no volume quanto no limite de palavras permitidas, uma espécie de cota individual limitada. Com a ajuda de um vendedor devotado, escavamos juntos montanhas de gibis cult e após saborear uma dezena deles, atravesso novamente o portal para a rua com três exemplares: 2 deles sobre atentados terroristas que se passaram em Bologna em 1980, e Milão em 1969, e um outro de uma xelografista formada na faculdade de Belas Artes de Roma. Sim, certo, pizza e chianti! Inútil procurar um lugar frequentado por locais, camuflo a derrota com um gelato de chocolate e decido ir para o hotel. Faminta mas com dignidade! E vindo de um beco próximo a rua do hotel, escuto o que parece ser uma torcida de uma pequena multidão e resolvo seguir os uivos intercalados de silêncios súbitos. Da rua, avisto uma pequena pizzaria com torcedores paralizados de frente ao jogo de futebol na tela plana de muitas polegadas. O lugar especializado em pizza napolitana. Na TV, Napoli X Fiorentina. Mais coincidência que isso só a final de Brasil X Egito quando pernoitei em Al-Arif, pequena cidade entre Cairo e TelAviv, na casa da família do taxista que se recusou a me deixar em um hotel por ser tarde da noite e eu estar sozinha. Como ninguém me deu atenção, sento no balcão entre a TV e o forno a lenha. Ao fundo, roupas penduradas em varais que cruzam as paredes repletas de avisos informando que não há serviço na mesas: “limpe sua sujeira”. Perfeito!! Os pizzaiolos, a caixa, o garçom, todos intrigados e receosos para saber se o que eu escrevia era uma crítica de algum guia de gastronomia. Duas taças de chianti e uma marguerita mais tarde, volto para o hotel. Napoli 0 X Fiorentina 0 X Post do blog 1!
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